212 720 140 | 939 430 940 infor@cparoquial-covapiedade.pt

Dia de Todos os Santos e o Terramoto de 1755: afetou Almada, Cacilhas e Cova da Piedade

1

NOVEMBRO, 2018

Instituição
Cultura
Comunidade

O mais terrífico dos sismos ocorridos em Portugal, de que há memória, foi o Terramoto de 1 de novembro de 1755, dia em que se celebrava e celebra o Dia de Todos os Santos. A este evento sombroso seguiu-se, consequentemente, um maremoto e deflagram-se inúmeros incêndios que duraram dias; associando-se a “esta experiência de terror” as pilhagens, acrescendo ainda mais a insegurança e fragilidade dos habitantes. Num relato histórico da época deste apocalíptico acontecimento, que deixou marcas profundas de devastação não só material, mas humana, o Padre Guardião do Real Convento de Maquines (Franciscanos Descalços) descreveu-o assim: “…hum tão terrivel, e nunca experimentado tremor de terra, no dia de Todos os Santos ás nove horas, e tres quartos da manhãa(…) nos oito minutos da sua duração deixou inteiramente destruido (…) os estragos, e dannos, que assegurão ter cauzado o tremor em as cidades, e povoaçoens (…) e dilatado império são inauditos (…) O terremoto, que derribou, e arruinou muitos edificios, cazas (…) deixou as demais sentidas, e sepultadas nas ruinas sem numero de gente. Oito léguas se abriu a terra (…).” E Francisco Sousa, uma das testemunhas, circunstanciou que “cada hun se julgava ante a morte, e ao pé da eternidade”.

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DE INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS E DA FAMÍLIA / CSPPRG – Paróquia a Cova da Piedade, Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, Livro do Termo que fizeram os Arraias e donos dos Barcos para ajuda da reedificação da nova Igreja de Nossa Senhora da Piedade, 1761, fls.1,2,40.

Não somente a terra tremeu, como também o quotidiano, a economia, a política, as relações sociais, as crenças, os valores, inclusive a atitude perante a morte e o valor da fé. Todavia, este sentimento coletivo de pânico, horror e destruição ante a calamidade desencadeou um género de consenso universal perante a experiência partilhada, onde a união, a solidariedade, o socorro às vítimas, a fé revigorada, a cooperação na reconstrução, emergiram no seu exponencial máximo. Um dos exemplos desta cooperação responsável entre todos, encontra-se na campanha de angariação de fundos que fizeram os arraias e donos dos Barcos para ajuda da reedificação da nova Igreja de Nossa Senhora da Piedade, no início do ano de 1761 (imagem em destaque). Na qual os pescadores, mestres e donos dos barcos do Caramujo quiseram contribuir na reconstrução do seu Templo, dando parte dos seus lucros da faina. Nas Memórias Paroquiais, realizadas pós terramoto (1757), movida pela perda de muitos manuscritos de anteriores inquéritos pastorais (que ficaram queimados e subterrados no Convento das Necessidades), há uma minuciosa descrição histórica e geográfica do que “sobreviveu” no território nacional. E em particular, nesta margem a sul do Tejo, nomeadamente na Vila de Almada, é descrito quais as Igrejas que ficaram destruídas e /ou sofreram graves estragos: a Igreja de Nossa Senhora da Piedade e seu Recolhimento – Cova da Piedade, a Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso – Cacilhas a Igreja de Nossa Senhora da Assunção ou do Castelo – Almada e da mesma forma a Torre e as muralhas do Castelo, a Ermida de S. Sebastião, e a Misericórdia – antigo Hospital dos Lázaros. Além das ruínas que o Terramoto fez nas Igrejas enunciadas, o Prior José Salgado de Araújo faz-se também referência, nestas memórias, das casas dos moradores desta freguesia de S. Tiago de Almada: “algumas inabitáveis, e outras menos prejuízo de que as mais delas, ou quase todas estão reparadas; umas postas no estado antigo, e outras conforme um pôde remediá-las; e é ao presente a notícia, que posso dar. Almada 26 de Abril de 1758”.

Pode-se denotar, que a partir do caos instalado emergiu uma visão criadora. Da mesma forma, segundo o referido na Carta do Núncio para o Papa, de 10 de fevereiro de 1756, perante uma sociedade católica do Antigo Regime esta catástrofe impulsionou a aproximação destas duas instâncias de poder, a civil e a eclesiástica. Pois, o sentir coletivo, assente numa visão “dura e crua” da sequela do grande Terramoto, ficou pautado mais do que nunca por uma religiosidade católica, tanto o crente e não crente, como o homem culto ou o iletrado, como o homem rico ou o pobre recebiam do magistério eclesiástico um conteúdo doutrinário vivo e interveniente. No qual, proliferam movimentos de fé, revigorados, quer nas Igrejas como em espaços públicos, orando e suplicando a misericórdia Divina. Parafraseando João Marques (2006), o Terramoto de 1755 originou num “duplo efeito psicológico catártico de inegável alcance”: por um lado, as gentes tornaram-se confiantes na misericórdia Divina e dóceis às diretrizes do poder espiritual e temporal, eclesiástico e civil, que obravam unidas para reintegração da ordem pública e da normalidade quotidiano da vida coletiva; por outro, a esperança no reconquistar do destino glorioso de Portugal, desse aspiração do Quinto Império, segundo o qual Portugal consumaria a realização do reino universal de Cristo, um império de fraternidade universal a ser vivido na Terra.

 

Alexandra Figueiredo
Centro de Documentação de Instituições Religiosas e da Família (rubrica
Livro do mês)

Referências Bibliográficas:

CARDOSO, Arnaldo Pinto,   O Terrível Terramoto da Cidade que foi Lisboa. Correspondência do Núncio Filippo Acciaiuoli (Arquivo Secreto do Vaticano. Lisboa: Aletheia Editores, 2005.

FLORES, Alexandra, “Vila e Termo de Almada nas Memórias Paroquiais de 1758”, Anais de Almada, nº5-6, 2002-2003, pp.23-76.

 MARQUES, João Francisco, “A acção da Igreja no terramoto de lisboa de 1755: ministério espiritual e pregação”, Lusitana Sacra, , 2ª série, 18, 2006, pp. 219-329. [Consultado a 30 /10/2018]
Disponível em 
http://portal.cehr.ft.lisboa.ucp.pt/LusitaniaSacra/index.php/journal/article/viewFile/383/369l

 PADRE GUARDIAM (1756). Copia de Huma Carta escrita pelo Padre Guardiam do Real Convento de Maquinés, e Vice-Prefeito das Santas Missoens, que nas partes da Barbaria conserva a Religiosa Provincia de São Diogo. Dos RR. PP. Franciscanos Desgalços, Ao Padre Procurador dellas, Lisboa, 1756.

 SOUSA, Francisco Luís Pereira , O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um estudo demográfico, Volume I – Distritos de Faro, Beja, Évora, Volume II – Distritos de Santarém e Portalegre, Volume III – Distrito de Lisboa, Volume IV – Distritos de Leiria, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Aveiro e Viseu (incompleto). Lisboa:Serviços Geológicos, 1919, 1928, 1932.

 CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DE INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS E DA FAMÍLIA /CSPPRG- Paróquia a Cova da Piedade, Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, Livro do Termo que fizeram os Arraias e donos dos Barcos para ajuda da reedificação da nova Igreja de Nossa Senhora da Piedade, 1761, fls.1,2,40.

Deseja receber as nossas notícias ainda antes de serem publicadas?

Subscreva a nossa Newsletter.

A Instituição

O Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro é uma IPSS de matriz católica. Nasceu há mais de 40 anos no seio da comunidade paroquial da Cova da Piedade, com o objectivo de responder às necessidades sociais existentes.

Newsletter

Siga-nos

Newsletter

Gostava de acompanhar as notícias, eventos ou saber mais sobre a Instituição?
Subscreva a nossa Newsletter e receba no seu email todas as novidades.

Subscrição aceite, bem-vindo!

Newsletter

Gostava de acompanhar as notícias, eventos ou saber mais sobre a Instituição?
Subscreva a nossa Newsletter e receba no seu email todas as novidades.

Subscrição aceite, bem-vindo!

Share This