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O luto: algo difícil, mas natural, que um dia todos iremos passar

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NOVEMBRO, 2019

Instituição
Comunidade

Já são visíveis os sinais de outono, tempo da queda da folha, tempo das cores douradas nas árvores. Tempo este, de contornos nostálgicos e de intensidade emocional, pela vivência da festa de Todos-os-Santos e dos Fiéis Defuntos. Não é por acaso, que o mês de novembro é conhecido pelo mês das almas, que nos faz parar face ao frenesim do dia-a-dia, nem que seja por alguns minutos, e fazer uma viagem interior, para recordar todos aqueles que já passaram pelas nossas vidas… Recordarmos rostos, nomes, momentos únicos e especiais, repletos de encanto que só as verdadeiras relações geram. É incontornável esta comemoração litúrgica, que nos coloca a todos, mesmos àqueles que não participam em nenhuma celebração, perante o mistério da morte.

 

Um eco que ressoa dentro de nós mesmos
Há um eco dentro de cada um de nós que se faz ouvir, numa dualidade confrontativa entre esses dois extremos antagónicos, o início e o fim, que de certa forma balizam a existência. Por muito que a ciência progrida, encontrando meios do prolongamento da vida humana, o desfecho é sempre o mesmo, a morte! Tão natural como nascer! Da mesma forma, que o ciclo da Natureza nos transmite, incessantemente: “produziu, cansou-se, esgotou-se e agora recolhe para uma nova criação”.

E quando a morte bate à nossa porta
Para aprofundarmos melhor, este tema incontornável em nossas vidas, fomos à conversa com Isabel Abreu, psicóloga e coordenadora da Resposta Social do Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) do Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro, que tanto a nível pessoal como profissional, já enfrentou muito de perto a perda. Foi nossa intenção apurar algumas estratégias de ajuda ao luto e de como esse processo deve desenrolar-se. Segundo ela, a morte é “aquilo que temos de mais certo! Por isso, vai acontecer a todos. E teremos para tal, tentar encará-la como algo natural”. Reforça ainda, que a morte “é como uma travessia para a outra margem… desconhecida. É certo! Mas, sabe-se que vamos lá chegar. Então, o que temos de fazer, é prepararmo-nos, procurando lidar de forma tranquila, não só para nós próprios, como para quem está junto a nós”. Deve passar, sobretudo, por uma “autoconsciencialização do que há de vir”.

 

Cada dor é particular
Segundo Isabel Abreu, perder alguém, “tem sempre uma dor associada, sendo cada dor particular. Cada um sente de forma muito própria. E claro, que não é fácil! Temos de aceitar, não deixando de falar disso, de viver o tempo de luto; caso contrário, não conseguimos ultrapassá-lo. Acredito, talvez por ser católica que nós apenas não vemos quem parte. A perda é apenas física! Todo aquele que parte, e que amamos, continua sempre connosco, quer no pensamento, quer espiritualmente, ou quer nas recordações boas”. De qualquer das formas, a morte expressa sempre a incapacidade de continuarmos a comunicação sensorial recíproca. Sendo esta, a essência da dor de quem fica, assistindo ao outro “partir”.

 

Após a morte, a ausência da “união do convívio afetuoso” torna-se presente
Após o falecimento, choramos a impossibilidade do convívio afetuoso corpóreo presente que nos unia. Portanto, “só não o vemos, só não está cá em matéria…”, sublinha a Psicóloga. Muitas das nossas lágrimas, nestes momentos de recordação são do amor vivido, do reconhecimento do que o outro deixou em nós. O amor é uma dádiva que se vive no presente, em cada instante concreto, e que tem em vista o Céu, a salvação das almas. Contudo, é neste mundo que experimentamos a alegria e a esperança do presente eterno do Amor, onde a morte não o pode vencer.
Portanto, a vida é esta contínua evolução, e se a morte fosse o “último suspiro” a pessoa humana estaria a evoluir para nada. É por este caminho que o coração da revelação cristã se foca!

 

Enfrentar a dor do luto e falar sobre ela
“Todo e qualquer processo de luto deve ser vivido, falado, exteriorizado, chorado, conversado. Nunca deve ser esquecido nem ocultado”, reitera Isabel. Aliás, o luto deve ser encarado de frente, “é importante vivê-lo para poder confrontar-se com aquele momento, aquela altura, aquele período, independentemente da sua durabilidade (que varia de pessoa para pessoa), para assim, permitir-se prosseguir com a vida e poder restrutura-la a partir dali…”.
Como estratégias para superar a dor, Isabel, sugere: “estar mais junto da família; assumir a dor e conversar sobre ela junto daqueles que ficaram e são mais próximos; arranjar atividades de ocupação (físicas ou outras), onde se sintam mais identificados e por conseguinte, mais ocupados, a fim de seus pensamentos serem preenchidos gradualmente por algo, exterior”, sanando assim, a dor.
Além disso, algumas das tarefas imprescindíveis à integração do processo de luto deverão passar: por uma transição para uma nova realidade (adaptação à perda); por dar um novo sentido à sua vida; por restaurar o seu sistema de vinculação com os outros; e por assumir novos papéis no seu contexto social e de identidade pessoal.

 

Como comunicar a perda de alguém faleceu – A experiência em contexto de trabalho
Para Isabel Abreu, como coordenadora de Serviço de Apoio Domiciliário do Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro, sempre que ocorre a morte de algum utente ou de algum familiar, toda a equipa, incluindo ela mesma (em representação da Instituição), reúne esforços para assistir efetivamente, à pessoa enlutada. Entre estes, ela destaca: “o de estar presente no velório e dar uma palavra de conforto a quem fica; o de proporcionar momentos de maior atenção ao utente que sofre perda, imbuídos de uma escuta ativa, uma proteção carinhosa, um cuidado e de valorização; o de efetuar mais visitas domiciliárias….”.
De acordo com a mesma, independentemente da idade de quem perde, “é importante dizer a verdade!”. A sua comunicação possui diversas nuances consoante a faixa etária em questão, não havendo receitas mágicas! Deve-se “dizer que a pessoa faleceu, explicando a razão, como ocorreu, dialogando de forma serena e atenciosa, de forma que ela possa compreender que aquela pessoa que lhe é querida, já não pode estar presente de forma física neste plano, mas que estará sempre presente, espiritualmente com ela, e jamais ela se esquece de si.” No entanto, como cristãos, respeitamos sempre outras posições sejam estas, agnósticas, ateístas ou de outras religiões, adequando o discurso e atitudes a ter.

Encontrar o amor de Deus no momento de luto
Parafraseando o Frei Bento Domingues (um dos maiores teólogos portugueses, da Ordem dos Dominicanos), a morte surge sempre de repente e de forma absolutamente misteriosa, tão misteriosa como o amor do próprio Deus, pois aqueles que morreram e amamos serão, agora transfigurados pelo amor de Deus. Ao rezarmos com eles, convoca-los para a nossa oração, e deste modo nunca nos perdemos deles, pois contrariamente, eles jamais se perdem de nós.
Assim, ao rezarmos de modo especial pelos defuntos, este mês, rezamos não porque são “defuntos”, mas porque estão misteriosamente com Cristo e connosco.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BATISTA, Inês B. (2011). Morrer é só não ser visto: falar do luto de coração aberto (8ªedição). Lisboa: Editora Planeta.
GOMES, João Bosco (2012). O outro lado da Cruz- como enfrentar e vencer o sofrimento. São Paulo: Editora Canção Nova.
GRUN, Anselm (2011). O que vem depois da morte? – A arte de viver e morrer. Prior Velho:Paulinas Editora.
KROEN, W.C. (2011). Como ajudar as crianças a enfrentar a perda de um ente querido. Lisboa: Planeta. Servilusa (ed.)
SEBASTIÃO, Victor. (2015). Guia Prático de Apoio ao Luto- ajudar a enfrentar a morte de um ente querido. Lisboa: Edição Servilusa.

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A Instituição

O Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro é uma IPSS de matriz católica. Nasceu há mais de 40 anos no seio da comunidade paroquial da Cova da Piedade, com o objectivo de responder às necessidades sociais existentes.

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